…É quando Pedro Ferraz da Costa diz, com aquele ar
perpetuamente zangado e enjoado com o mundo, que é preciso acabar com 100 000
ou 200 000 empregos na função pública, sem problema nenhum, porque o Estado vai
continuar a funcionar na mesma. É que não é análise, é desejo. É quando se
defende um mundo que funcione para as “empresas” – uma abstracção funcional
porque o que eles querem dizer é outra coisa – sem ter que emperrar porque há
leis, direito e direitos, instituições e eleições, interesses outros que não os
das classes “certas”. Quando esse discurso, bruto e sem ambiguidades, veio ao
de cima com a decisão do Tribunal Constitucional, percebemos bem a raiva.
No meio disto tudo, Passos Coelho fornece outro produto,
mais à sua dimensão de executante, mas que também transporta alguma desta
raiva. É quando Passos Coelho diz que “não estamos a exigir de mais”, como se
fosse pouco o que se está a “exigir” e ainda não levaram em cima com a dose
toda .É quando avança com mais uma comparação moral que mostra o imaginário
onde estamos metidos; não podemos correr o risco de nos cruzar com os nossos
credores “nos bons restaurantes e boas lojas”. É mesmo isso que os portugueses
andaram a fazer nos últimos anos, a comprar malas Vuitton e sapatos Jimmy Choo!
Passos dizia que as pessoas “simples” percebiam isto, porque
de facto para ele as coisas são assim simples. Então como é que nos devemos
“cruzar com os nossos credores”? De alpergatas, vestidos de chita, trabalhando
dez horas por um salário de miséria? É que não é preciso andar muito tempo para
trás para ter sido assim. Ainda há quem se lembre. Deve ser por isso que é
preciso “ajustar”…
José Pacheco Pereira no Público
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